AS HISTÓRIAS DE JOÃO DE JESUS
No tempo em que o Reno vagueava p'las margens do Mondego
Quando me instalei nesta cidade que me acolheu, onde os meus filhos nasceram, cresceram, estudaram e se fizeram adultos, fui tentando com a timidez do provinciano que chega do seu pequeno meio, inserir-me na grandeza citadina.
É sabido que nem sempre é fácil adaptarmo-nos a um ambiente que não é o nosso, enfrentar novos desafios, conhecer novas
pessoas, porém, digo-o com sinceridade, a minha inserção não foi tão difícil quanto
imaginei... para isso muito contribuiu o precioso apoio de familiares por cá a residirem há muito, aliado ao meu gosto em conquistar amizades
e, assim, rapidamente criei o meu núcleo de relacionamentos o qual fui enriquecendo no decorrer dos anos.
As actividades que fui exercendo, sempre vocacionadas para a área de
vendas com uma componente de relações humanas muito elevada, foram também um excelente
contributo para esse relacionamento em que as pessoas, normalmente afáveis e receptivas,
sempre me recebiam cortesmente, exigindo em troca apenas o meu respeito e uma boa dose de humildade.
Em suma, rapidamente fui incluído em grupos de amigos, em tertúlias, onde a minha presença era habitualmente solicitada para contar umas anedotas, umas historietas, para o que segundo dizem, (modéstia à parte), tenho alguma vocação.
Assim, o leque de pessoas que fui conhecendo, quer a nível profissional quer mesmo em actividades lúdicas, foi-se
alargando e eu fui apreciando-as, procurando sondar as suas preferências, os seus gostos, de modo a poder com elas conviver em sã harmonia e
camaradagem.
Naturalmente, fui reparando também nalgumas figuras com quem me comecei a cruzar no dia a dia, nas minhas deambulações pelas artérias da
cidade... figuras típicas como existem em quase todas as localidades. Em
pequeno aparte diga-se
que também na minha cidade natal as havia e bem marcantes como tem sido descrito de forma tão empolgante quão apaixonada, em prosa ou em verso, pelo autor e director do Voz do
Seven.
E, nesta cidade de Coimbra que me acolheu, uma dessas figuras passou a ser alvo da minha curiosidade. Via-o diariamente fazendo o seu trajecto entre alguns estabelecimentos comerciais da “Baixa”. Um
deles era propriedade de um meu familiar, onde eu habitualmente fazia uma pequena paragem para as saudações da manhã ou da
tarde e, muitas vezes, aproveitava a sua companhia para saborearmos um delicioso café em casa da especialidade
situada nas proximidades.
Fui-me familiarizando com o Reno, como era apelidada essa figura, e cuja presença por ali se devia à sua actividade, ao seu modo de
sobrevivência: disponibilizava-se diariamente para satisfazer as necessidades dos seus diversos “patrões”, executando pequenas tarefas, era o homem dos
recados e como recompensa tinha o garante de uns escudos diários que supriam as suas necessidades básicas.
Diga-se, em abono da verdade, que o Reno era um homem sempre muito prestável, embora não gostasse de “grandes velocidades”.
O registo duma carta, o levantar duma encomenda era motivo de longo período ao “serviço daquele patrão”
e quando questionado sobre o motivo da demora, a resposta era sempre a mesma...
que estava muita gente para registar cartas ou levantar encomendas!
Um dia uma gata, mascote de um dos estabelecimentos, deu à luz abundante ninhada de rebentos. Alguns dos recém-nascidos tiveram que ser sacrificados e o Reno foi incumbido de tal tarefa. Lá partiu, balde preparado em direcção à margem do Mondego
e o regresso verificou-se horas
depois e à pergunta do motivo de tão longa demora a resposta foi a mesma de
sempre... que estava lá muita gente!
Muita gente a fazer o quê?... A afogar gatitos!
Também não recusava dar uma informação “pronta e esclarecida” ao turista que vendo-o por ali, algumas vezes se lhe
dirigia... como aquele francês, que um dia, de binóculos e mapa na mão, lhe perguntou:
– S`il vous plaît, université?
O Reno com o seu ouvido já bastante duro, aliado a uma pronúncia que não lhe era familiar, ripostou com o manifesto desejo de ser útil:
Como?... UNIVERSITÉ, insistiu o visitante. Então fez-se luz, e a informação chegou ao
pormenor...
UNIVERSITÉ? NÃO TEM NADA QUE ENGANÊ… SEMPRE EM FRENTÊ… DEPOIS ESQUERDÊ…
ARCO DE
ALMEDINÊ... ESCADÊ... E UNIVERSITÊ!
Diziam que pernoitava num casebre no extremo da cidade. Os anos foram passando e o desgaste das faculdades físicas do Reno começaram a ser notórias.
Um dos seus “patrões” querendo agraciá-lo com uma prenda na velhice chamou-o
um dia e disse-lhe:
– Ó Reno, tu que andas por aí sabe Deus como... se eu conseguir um lugar, queres ir viver para a Casa dos Pobres?
– Claro que quero, Sr. Felisberto! Pelo menos passaria a ter um refúgio onde ficar e uma sopa quente para me aconchegar o estômago.
–
Então quando houver uma vaga podes contar que a irás ocupar.
Volvidas algumas semanas a tão aparentemente desejada vaga verificou-se...
– Reno, podes juntar as tuas coisitas que aches por bem levar contigo e no principio do
mês podes então ir para a Casa dos Pobres.
O Reno ficou mudo e quedo!
– Não estás contente com a notícia?
– Não Sr. Felisberto. E peço-lhe desculpa mas não vou poder aceitar a sua amiga e simpática oferta...
– Mas porquê?
– Olhe Sr. Felisberto, tenho andado a pensar no assunto e não posso realmente ir para a Casa dos
Pobres... se fosse para a Casa dos Ricos, Sr. Felisberto, eu aceitaria, mas para a dos pobres não posso aceitar, pobre já eu sou e era mais um a juntar aos que já por lá
estão!
E com esta filosofia de vida, o Reno lá continuou nas suas andanças pelas ruas da cidade.
Tempos depois deixei de o ver... provavelmente ter-se-á finado no seu tugúrio, mas usufruindo de um bem inestimável:
DA TOTAL LIBERDADE ATÉ À MORTE!
João de Jesus
Coimbra
07/11/2006
quem
é João de Jesus
HISTÓRIAS
DE JOÃO DE JESUS
joaojesus_3645@clix.pt
Neves, AJ | outubro 12, 2006 04:12 PM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt
Meu bom amigo, foi com enorme prazer que tive oportunidade de ler esta tua história e de constactar a simplicidade com que tratas as palavras. Palavras para quê ! És um artista Português! Um grande abraço ; e obrigado por existires ! De João para João
Afixado por: João Andrade Costa em novembro 20, 2006 07:03 PM