AS HISTÓRIAS DE JOÃO DE JESUS
Torresmada com trutas acompanhada (à viola) p'lo inesquecível Zé Pires
(sempre que Março se aproximava renascia o entusiasmo, o “bichinho” como que terminava o seu período de
letargia e começavam os planos com longas dissertações à mesa do café)
Se o Inverno tinha sido muito ou pouco pluvioso, ele calculava então o caudal das ribeiras, consultava cartas geográficas e começava a sonhar onde estaria aquele exemplar
enorme que no ano anterior se escapara já mesmo quase dentro do cesto!
E as amostras? Tinham sido lançados uns modelos novos, de cores vivas e atraentes a que nenhuma
(truta) resistiria.
Ele até já as tinha visto na montra do Correia Pinto... eram o último grito da “Mepps”.
O seu entusiasmo era verdadeiramente contagiante e nós ficávamos expectantes, procurando beber
daquele cálice que transbordava de conhecimentos. Os atentos alunos eram habitualmente dois :
o Jorge Marta e eu...
alunos, sim, porque a arte de bem pescar trutas, era predicado apenas de grandes
mestres.
E ele era realmente um Mestre, um mestre que nós escutávamos com veneração,
um mestre que possuía o dom de ser multifacetado...
mestre na arte de bem pescar, como já disse, mas também mestre no trinar melodicamente
da guitarra e na arte de bem fazer carambolas em toda a mesa (de bilhar). No bilhar era
mestre exímio, a sua tacada suave conduzia as bolas num rodopiar mágico, numa sucessão de recortes de beleza, que deslumbrava
a assistência!
A todo este virtuosismo aliava-se o fino trato, a sua correcção ímpar, recebendo como contrapartida o respeito e a amizade de todos pela sua reverenda e peculiar figura.
Este de quem temos vindo a falar é o Zé Pires, o homem que marcou muito positivamente inúmeros jovens da minha
cidade, com quem eu tive o privilégio de conviver de muito perto e de ter sido incluído no seu vasto rol de amigos...
o Zé Pires que irradiava tranquilidade na sua voz pausada, no seu passo firme, quão
cadenciado e que exibia com garbo as suas venerandas barbas, cofiadas
frequentemente em gesto automático.
Era este homem que, ainda o dia um de Março vinha longe, já andava na tal azáfama que nos
envolvia para que a “abertura das trutas” fosse um sucesso. Depois de consultadas as cartas, escutadas as condições meteorológicas e
feita a prospecção dos caudais das ribeiras, a preferência para a dita “abertura” recaía invariavelmente na Ribeira de Pomares, lá
p'ras bandas de Arganil.
De acesso fácil, com margens isentas de obstáculos graças ao trabalho de quem laboriosamente cultivava as suas
propriedades (outros tempos), era realmente o curso de água ideal para a primeira incursão da época “pela natureza
adentro” como costumávamos dizer.
Aqui neste local usufruíamos de outro privilégio... é que o almoço estava sempre
assegurado na residência dos Gama, D. Maria e Senhor Gama, um simpático e hospitaleiro casal de anciãos
que nos recebia sempre de braços abertos em sua casa, no lugarejo de Agroal, onde
por norma deixávamos a viatura e iniciávamos as nossas actividades piscatórias.
Nunca escolhíamos a ementa... isso ficava a critério da nossa anfitriã. Apenas nos anunciávamos e pedíamos à D.
Maria para que lá pela volta das 13 horas nos tivesse confeccionado qualquer manjar que nos aconchegasse o estômago.
E nesse dia, a D. Maria caprichou.
Palmilhados dois ou três quilómetros ribeiro acima e outros tantos de regresso, os sucos gástricos pediam-nos insistentemente para entrar em acção, porque provavelmemte as reservas calóricas estavam a entrar em
déficit preocupante e logo que o nosso porto de abrigo foi avistado e nos aproximámos mais, um cheirinho
reconfortante pairou no ar…. o Marta com o seu olfacto
apurado rejubilou e até disse que só com o cheiro já bebia um copo!
Fomos recebidos na “sala de visitas” dos nossos anfitriões, a grande cozinha onde o fogo crepitava na lareira, e a D. Maria dava o último retoque a uma olfactiva “torresmada”.
Finalmente, entre um queijito feito, seco lá em casa, e um desfiar de elogios à cozinheira,
o enorme tacho pousou na mesa e fomos-nos servindo abundantemente.
O Senhor Gama insistia para que não fizéssemos cerimónia e incitáva-nos a beber mais um
copito, porque era da sua lavra, "puro da cepa", não era
composto com "produtos", não fazia mal a ninguém.
Como nos sentíamos reconfortados!
Reconfortados com o manjar e com o calor emanado da fogueira que em princípios de Março ainda é recebido de bom grado. E o Sr. Gama, que nos fazia companhia e se deliciava também, teve o cuidado de nos perguntar se estávamos a gostar do almoço. Eu e o Marta respondemos que era a refeição que nos tinha sabido melhor nos últimos tempos.
O Zé Pires como que em renovado elogio pediu à D. Maria para proibir o marido de fazer perguntas daquelas...
porém, o nosso anfitrião lá da sua provecta idade, mas aliada a um espírito jovial notável,
insistia no seu “discurso”...
que um porquito tinha-lhe aparecido morto no curral e que esta era a principal razão daquele menu dos Deuses. Nós entreolhámo-nos e eu
de imediato perguntei : então o Senhor encontrou o porco morto no curral e aproveitou-o para consumo em vez de o enterrar?
–Sabe meu amigo, a vida está difícil, temos que aproveitar tudo,
respondeu o bom do sr. Gama.
Eu e o Zé Pires lá nos mantivemos, embora olhando para o tacho com alguma desilusão. Para o tacho e para a D. Maria que no seu sorriso
maroto e no abanar negativo da cabeça nos deu a entender que o marido estava a brincar...
mas o Marta nem teve tempo para se aperceber desse pormenor...
num repente levantou-se da mesa, correu para o quintal, fertilizou uns arbustos ali existentes, e reentrou com o aspecto de um doente sofrendo de
maleita hepática crónica…
Isso não se faz Senhor Gama! E vocês aí... continuam a comer?
Olha já está, já está…o que entra não sai, retrucou o Zé Pires.
Mui calmamente, o
anfitrião falou então...
olhe amigo Marta, o amigo precipitou-se. Não me permitiu acabar o meu discurso.
É verdade que o porquito apareceu-me morto no curral e eu até tinha combinado com o matador para o abater ontem por volta das nove horas…
porém o homem e seus ajudantes vieram mais cedo e quando eu cheguei ao curral, ao local do crime, o pobre suíno já estava
morto. Como vêem caros amigos, não lhes menti!
Ufa... e o Marta recuperou as cores!
Enquanto nos ríamos a bom rir e o Senhor Gama ia baralhando as cartas para “batermos” uma
suecada durante o resto da tarde, a D. Maria dava uma aquecidela ao
tacho,
porque o Marta ainda tinha que almoçar…
João de Jesus
Coimbra
quem
é João de Jesus
HISTÓRIAS
DE JOÃO DE JESUS
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Neves, AJ | outubro 1, 2006 06:48 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt