... não se julgue que esta
posição (a favor do desarmamento da população civil) vem de agora... Voz
do Seven não gosta de armas, tem horror a armas e é contra o
armamento civil, por perigoso e completamente desnecessário em
todo e qualquer Estado/Nação de direito. Em livre pensamento
afirma-o bem alto e nem coloca ses
hipotéticos, pois é assim que pensa o seu autor que neste texto
veste a pele do Neves, AJ por ser ele que tem pânico
às armas, muito em parte devido a que jamais pegou numa que se
preze... e tem idade para isso, digo-vos. Só não peguei porque
o feliz dos acasos aconteceu e nem que fosse só por isso
digo-vos que valeu a pena a Revolução
dos Cravos em
Portugal.
Como podem constatar, a crónica, o texto, passou a ser redigido
na primeira pessoa, porque tornou-se necessário, porque as
memórias de juventude afloram em catapulta e relembro aquela
guerra, para mim a mais estúpida das guerras que estropiou e
matou milhares de jovens, portugueses e seus irmãos africanos
das antigas colónias. O meu ser estremece ao falar
nisto, recorda a Escola Primária e os cânticos guerreiros d'
Angola é nossa, gritarei... não me pergunteis a
razão, mas as minhas entranhas parece que sentem uma necessidade
enorme de serem exorcizadas de um fantasma que não tem razão de
existir, porque nem fui à guerra, a essa guerra chamada de
colonial. Bom, o meu corpo não esteve lá, mas digo-vos com
sinceridade que também eu vivi muito intensamente essa época
porque lidei diariamente com o sofrimento de uma mãe, em
angústia permanente pela ausência de seu filho lá por terras
do Cu de Judas, não entendendo sequer (querendo lá saber...)
que interesses ele ia defender. E essa mãe em sofrimento, não
se poderia alegrar mesmo que as novas vindas de África fossem
boas (ou pelo menos não fossem más) porque outro filho se
seguiria na linha de produção de mais homens p'ra Angola
em força, já... esse "outro filho" sou eu, este
que vos fala e que pela primeira vez escreve sobre o assunto. Sem
medos e talvez por necessidade e também para que os mais novos
meditem. Teria eu os meus 12 anos quando tomei contacto com a
dura realidade de que meu irmão, mais velho que eu 9 anos, iria
"lá para fora" combater na guerra colonial. Até
recordo o exacto momento... estávamos, eu e meu irmão, sob a
parreira de videiras no quintal de casa em concurso de
"setas ao alvo" disparadas por, nem de propósito,
pressão de ar (espingarda de chumbinho) e um vizinho, passando,
questiona-o sobre a vida... a vida militar certamente... meu
irmão não falou, bateu com a palma da mão direita sobre o
dorso da mão esquerda, uma duas vezes, em sinal inequívoco de
que ia... ia embora... estava mobilizado para o Ultramar, ia
zarpar para longe. Nada perguntei, mas entendi... depois havia
aquele saco, verde escuro, aquela mochila onde ele apenas podia
transportar o essencial cada vez que vinha a casa gozar os dias
de licença antes do embarque... e tantos que foram os
adiamentos, parece que a táctica dos adiamentos era para
despistar as "secretas" que pudessem informar o
inimigo... eu hoje mandava-os (a eles aos coronéis ao sistema) à
outra banda exigindo-lhes justificação por gozarem com os
sentimentos de um mãe, de uma família... de um Povo.
Meu irmão nunca soube das lágrimas que minha mãe derramava quando ditava os aerogramas (que tinham de ser comprados... 20 centavos) que eu escrevia e que direccionava para o soldado condutor número não sei quantos barra 67 p'ro SPM 5826 ou 5126 não interessa. Nessas cartas falava-se de tudo um pouco, desde o Sporting dele ao meu Benfica que lhe ganhava, passando até pela gata que tinha ido parir aos sacos dos farrapos que o meu pai trazia da Alfaiataria e depositava na loja de arrecadações... o que interessava era levar até ao Cuango, Norte de Angola, notícias d'Aquém-Mar que o entretivessem e jamais que lhe pudessem aumentar os problemas que já tinha.
![]() a partida |
![]() a chegada |
![]() os abraços |
A chegada de meu irmão a Lisboa,
ao cais de Alcântara foi triunfal... não para ele que não teve
direito a medalha de mérito, pois estas estavam guardadas para
aqueles que tinham perdido um braço ou uma perna ou para o peito
dos seus familiares mais próximos que recebiam a condecoração
de semblante mais carregado que o luto que vestiam.
O triunfo foi meu
porque pela primeira vez fui a Lisboa, à capital do país...
porque vi nascer o dia ao lado da majestosa Ponte sobre o Tejo
(hoje 25 de Abril na altura chamada de Salazar) tendo ao largo,
naquele imenso Tejo de luzes reflectidas, o iluminado navio que
trazia as tropas...
porque delirei com as manobras do atracar do navio (Uíge se não
me engano)...
porque fiquei de boca aberta com a visão de centenas, de
milhares de homens todos os iguais a acenarem, menos um que não
lia o letreiro Santa Comba Dão...
Que maior riqueza poderia ser dada a um jovem daquela época que
nada conhecia, apesar de ter crescido e estava agora com 15 anos,
pois tudo isto já se passa depois do meu aniversário de
Novembro... era Dezembro, dia 22 ou 23 talvez.
Jamais esquecerei, também, a azáfama do desembarque onde os
abraços eram temperados pelas saborosas lágrimas das mães,
namoradas e esposas... (outras) mulheres, talvez madrinhas de
guerra de homens que nunca tinham visto, pesquisavam de foto
em punho p'los seus queridos que tardavam em encontrar... mas
"tal como bela sem senão" o meu encantamento ficou
severamente manchado para toda a minha vida e me criou grande
sentimento de revolta por ver do alto da varanda do cais de
Alcântara o despudor de descarregarem como mercadoria dezenas e
dezenas, talvez centenas de urnas contendo os restos mortais de
homens militares... esta manobra feita em plena luz do dia e à
vista de quem espreitasse seria propositada?
Comecei por falar de desarmamento, viajei à guerra, à guerra
que eu vivi e afinal não senti (na pele) graças aos deuses da Liberdade... feliz me sinto por ter acabado...
louvemos por, agora reunidos em comunidade, todos estarmos em
Paz, nós portugueses e os irmãos africanos, porque...
estremeço só de pensar em situação imaginária, mas não
irreal, que por teias tecidas p'lo diabo do destino eu me
encontrasse um dia, em mata qualquer africana, de arma na mão
frente a frente com neto de meu avô paterno que, emigrante por
terras de Angola, deixou (também) prole afro-descendente.
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Meu avô, Manuel
Neves, que partiu para Angola nos anos 30 do século
passado e que jamais regressou. Apesar de não poder esconder uma certa mágoa por se "ter esquecido" das suas origens, presto-lhe devota homenagem. |
Neves, AJ | setembro 4, 2005 11:30 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt