(por cá feriado)
Esta
é a lápide que encima a sepultura de meus pais (e de minha avó paterna,
acrescente-se). A foto foi feita por um amigo, há mais de ano, Setembro de 2008
como o testemunha o mail que esse mesmo amigo me enviou na altura. Fez a foto,
porque eu não a conhecia. Até ao sepultamento de meu pai era outro mármore. Por
diversas vezes estive para a colocar no ar, mas nunca o fiz. Não por
falta de oportunidade (nem por falta de coragem) já que são muitas as ocasiões
que foco aqui meus pais, talvez mais minha mãe é certo, mas porque nunca cheguei
a consenso com aquilo que escrevia. Esboçava o texto, mas o produto final não me
satisfazia ou porque era demasiado superficial, tipo ir colocar uma vela e um
ramo de flores no dia de Todos os Santos à campa dos velhotes, ou porque era
demasiado contundente e entrava "pela morte adentro" reflectindo eu depois cá
com os meus botões que não tinha o direito de vos incomodar com as minhas
dissertações acerca, as quais, admito, fogem consideravelmente dos parâmetros
convencionais da sociedade e, registe-se, daqueles que minha mãe me transmitiu.
Por exemplo, o ritual do dia de ontem, o da romaria aos cemitérios que,
convenhamos, interessa sobremaneira aos especuladores que comercializam as
flores. Há muito que tinha deixado de o fazer neste Dia de Todos os Santos
preferindo visitar minha mãe em dias marcantes para ela e para mim ou quando a
vontade me puxasse: bastava às vezes apaixonar-me por uma rosa no Jardim,
surripiá-la sorrateiramente e ir por aí acima juntando-lhe em ramo uma ou outra
flor silvestre que encontrava pelo caminho.
Tenho que confessar que as visitas
feitas a minha mãe, ao local onde depositaram o corpo inerte de minha mãe,
atente-se, sempre ou quase sempre carregaram um doce e terrível egoísmo da
minha parte. Nunca rezei, nunca lhe dediquei uma Ave-Maria ou um Pai-Nosso, e se
é verdade que em algumas das vezes (dia de nascimento, dia da Mãe ou dia de
falecimento, por exemplo) era para lhe prestar homenagem porque a sua memória me
vinha à lembrança, o sentido real da visita era mais para cuidar de mim, do meu
desassossego que bem vistas as coisas nunca me largou mas que aprendi a dominar,
em parte [se como dizem a alma existe e se esta tem sentimentos, então tenho a
certeza que minha mãe está feliz neste preciso momento]. No início cheguei a
sentir o sabor salgado das lágrimas tão silenciosas como o silêncio que me
rodeava, um silêncio mudo e reconfortante por não ter vivalma por perto e por
companhia apenas os que desejam paz. Talvez por tudo isso por não sentir esse
sossego à minha volta é que deixei de ir no primeiro de Novembro. Curiosamente e
em contradição pura comigo, ontem apetecia-me ir junto à sepultura de minha mãe
que há sete anos a esta parte, tantos quantos eu levo de presença no Brasil, é
também sepultura de meu pai (e assim penso que está explicada apenas a citação
de minha mãe nas linhas acima). Das razões do meu desejo não sei, talvez por ter a fotografia
comigo ou, essencialmente, creio, por na Sexta-feira o amigo João me ter dito em
conversa (pela internet) que no dia seguinte iria à santa terrinha (reside em
Coimbra) enfeitar as sepulturas dos seus familiares. Amavelmente, e em rara
prova de amizade, disse-me que colocaria por mim uma flor na sepultura de meus
pais. Ontem conversámos novamente. Que esteve com meu irmão mais velho e ainda
que os dois cravos que colocou na véspera lá estavam distintos no meio das
outras flores com que ornamentaram a sepultura. Não bastava eu já ter aprendido
a sepultar meus pais na minha mente, que evita com que eu me desloque ao local
físico onde os corpos desceram à terra e assim convencer a minha consciência de
que estou sempre presente, quando, por acção de um amigo, afinal eu consegui lá
estar na realidade. Obrigado João.
Neves, AJ
| novembro 2, 2009 06:11 AM
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