Defesa
da Beira
SEMANÁRIO REGIONALISTA
O Jornal de maior tiragem da
Beira Alta
Ano 64° 13 Maio 2005 N° 3155
Crónicas Minhas
Uma meia-dúzia de anos
São Paulo, 08/Maio/2005
É meu desejo que
considereis que hoje é dia 13 de Maio, dia em que a nossa cidade
de Santa Comba Dão festeja seis anos de vida... e diga-se já
que não tenho pejo algum em aplicar o termo vida mesmo que seja
interpretado no seu sentido biológico, porque o sangue de uma
cidade são as gentes que fazem parte dela, as que contribuem
para o seu engrandecimento, sejam elas as naturais sejam as
residentes por opção ou por factos circunstanciais e até
mesmo, porque não, aquelas outras pessoas que apesar de se
encontrarem longe a têm no coração.
Santa Comba está de parabéns, faz-se a saudação e pouco mais
esta Crónica Minha pode focar, porque conforme já disse, para
mim cada vez se torna mais difícil escrever sobre a nossa
terra... não vejo, não ouço e na escrita, principalmente a
jornalística, a observação torna-se importante senão
imperiosa. É verdade que muito factos chegam até mim através
do Defesa e do portal (internet) da Câmara Municipal, mas mesmo
assim torna-se difícil, e até perigoso, escrever e como não
tenho muito jeito p'ra bater palmas às escuras ou criticar
desalmadamente prefiro calar-me e falar p'ros meus botões.
Bem... mas há pelo menos uma notícia que me deixou bastante
entristecido, me leva a falar e é também por via dela que a
minha memória voa longe neste preciso momento, neste Domingo
segundo de Maio, que por estas terras tropicais às voltas com as
aragens outonais, comemora o Dia das Mães. Mas, não foi
propriamente minha mãe que me ocupou a lembrança, antes sim o
Zé Neves, meu pai, quando me levava ainda pela mão até à
Alfaiataria que já é um dos ex-líbris do Largo do
Balcão (abriu as suas portas em Agosto de 1955).
Já lá vão mais de 40 anos e recordo a alegria ímpar de
"ir à vila" e ser o alvo das atenções por pessoas
que ainda hoje recordo com estima... os empregados do café onde
agora é o Banco, os motoristas de táxis que na altura se
chamavam carros de aluguer, os funcionários da loja de meu pai e
tantos outros que a memória lembra bem, mas que não nomeia por
ora, pois o rumo do presente texto é outro.
A liberdade de meus movimentos limitava-se a brincar com os cepos
que os alfaiates usam para apoio e descanso das pernas, com os carrinhos
de linha e botões e se colocava os pés no passeio
defronte da alfaiataria jamais eles poderiam pisar o asfalto...
os vigilantes eram milhentos e só com o tempo é que
comecei a ter permissão de ir mais além, passeio afora... seria
assim por esta altura dos meus 5-6 anos de idade que teria feito
conhecimento com o engenho que agora, segundo
contam, querem destruir.
O simples facto de tal monumento, verdadeiro monstro granítico
trabalhado, ser testemunhado por nós, os da minha geração cuja
idade ronda o meio século de vida, já deveria ser motivo de uma
mais elevada estima... acrescentando agora que ele, o monumento,
já permitia a rega de culturas muitos anos antes de nascermos,
pensa-se que jamais deveria ser destruído.
Dir-me-ão que o progresso não se compadece. Mas será mesmo
assim? O progresso é sempre bem vindo desde que preservando a
memória das cidades, que é afinal, e voltando ao início do
texto, a memória das gentes que as constroem. Quanto a nós,
tudo pode ser possível se a tal não faltar o engenho
e a arte e digo isto porque já vi árvore centenária a fazer
"centro de sala" em moradia e até penedo em canto
de divisão que para além de embelezar poderá ter tido o
seu lado de utilidade construtora.
Afinal parece que
estive a escrever p'ras moscas... com mágoa e em desabafo o
digo. Falava eu em termos hipotéticos e durante telefonema
transatlântico foi-me dito, neste Dia das Mães, que a
mãe-terra tinha levado duro golpe, que, enfim, o engenho
já era... fiquei sem assunto e com as
pernas da memória completamente trucidadas já não dá para
voltar atrás. Mesmo assim o texto vai seguir, mais não me resta
que finalizar e tentar arranjar um desembarque airoso deste barco
sem convés em que me meti... em busca do tal "remate
final" que os redactores tanto gostam mais não me ocorre
que desejar que os santacombadenses se sintam felizes neste sexto
aniversário da sua cidade.
Post Scriptum Não posso deixar de mencionar que
também num dia 13 de Maio, mas do ano de 1888, foi abolida a
escravatura no Brasil. A assinatura dessa lei abolicionista, a
Lei Áurea, foi feita pela Princesa Regente D. Isabel, filha do
Imperador D. Pedro II (na altura em viagem pela Europa) e neta de
D. Pedro I do Brasil, o "nosso" D. Pedro IV.
Neves, AJ | maio 16, 2005 01:22 PM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt
Meu amigo:
O meu comentário à parte final do teu artigo, já te foi remetido por E-mail, em forma de desabafo.
Reitero aqui, o meu profundo desapontamento, pela destruição de uma peça patrimonial importante, que outros, como eu, recordaremos com grande mágoa. Decisões desta monta, quase mereciam referendo concelhio.
Um enorme abraço.
Alipio Calisto