Tenha-se
por base introdutória que apesar de ultimamente andar arredado das lides jornalísticas (digamos assim) no semanário do Defesa da Beira, jamais se poderá desvanecer o meu interesse
pelo que se passa na terra que me viu nascer... tanto mais que até já escrevi
no meu Voz do Seven "... que quando se sai do torrão já com quase meio século
de vida as raízes não podem secar mais.
Assim,
é com enorme expectativa que espero pela chegada do Defesa. Ontem,
Sexta-feira, chegou. Não sei propriamente a hora nem sei se o carteiro tocou
duas vezes e isso até foge ao que me proponho. Sei que almoçávamos e após a
panorâmica à primeira das páginas os meus dedos caminharam para as últimas,
para o cantinho da nossa Cidade. De imediato a visão da foto de um amigo
entre tarjas negras abalou-me... nem li a notícia....já sabia... tanto mais
que alguém já me avisara que o seu estado de saúde inspirava sérios
cuidados.
Delfim
Pais de Matos, o popular Delfim Pina, é o amigo de que falo. Amigo que
sempre considerei e respeitei e, em consciência plena, afirmo também que a
amizade que ele me oferecia era sã, raiando até, por vezes, a forma
paternal... porque, afinal não fui eu e outros tais, quase como seus filhos nas
primeiras andanças pela causa da Camisola Preta que nos unia?
...
Hoje
o dia nasceu quente... esquentou bem, como dizem as gentes por aqui. Após
três dias parecidos com o nosso Inverno este Sábado primaveril promete, mas
nem o Sol radioso me desperta deste estado hiberno-mental que me aflige,
só sei que tenho, que devo escrever e não encontro o fio à meada.
Parto
em busca das recordações, daquelas que ontem relatei cá em casa. A memória
contou-me que o primeiro contacto de convivência directa com o Delfim Pina foi
talvez naquela célebre (re)marcação do pelado do velho Estêvão de Faria que
até já vos relatei em outro texto. Nesse encontro aprendi pela voz do recém-chegado
emigrante na Alemanha, que Pitágoras (o Teorema) afinal tinha aplicação prática
e nem era necessário saber enunciá-lo. Mas
a memória foi mais longe, muito mais, que nem eu próprio sei definir a idade
que tinha. Dez anos? Menos? Talvez e por isso temo que a memória me possa
trair. Mesmo assim relato que estava a presenciar desafio dos Pinguins no
Pereiro, sentado nas bancadas do lado dos balneários antigos que na altura
eram os que existiam. Vestido de amarelo (a cor que deveria sempre acompanhar o
negro das outras camisolas) Delfim Pina defendia as redes santacombadenses e
lembro-me dele no chão a contorcer-se de dores... afinal era apenas motivo para
que o também guarda-redes Luís (o comboio Rápido não o tinha
sido e ele tinha chegado atrasado) entrasse para o seu lugar visto que na altura
a única substituição possível era a do goleiro, se lesionado...
Delfim
Pais de Matos, como eu gostava de lhe chamar, entregou grande parte da sua vida
aos Pinguins do Dão. Não sei quantos anos. Muitos foram. Foi atleta.
Foi dirigente. Vogal... Presidente. É neste período em que assume a liderança
do clube que o meu contacto com ele foi mais intenso e a amizade inevitavelmente
nasceu... tanto mais que, como ele muito gostava de frisar, nós éramos
parentes... primos em terceiro grau, penso. Recordo e sou obrigado a transcrever
as dificuldades vividas naqueles conturbados tempos de falta de apoios e
pergunto-me como Delfim Pina e seus pares conseguiam levar a barca a bom porto.
Eram as bolas que escasseavam nos treinos, faltavam chuteiras, toalhas... então
no dia de jogo... bem, o Domingo era dia de enorme preocupação... os
equipamentos estariam preparados? Quantos jogadores havia para o jogo? Fulano já
teria vindo? E beltrano... seria preciso ir buscá-lo a casa? E o autocarro para
transportar os Pinguins já teria chegado? Conseguir-se-ia chegar a
horas?...
Em
dia de jogo, os afazeres, os nervos, a ansiedade nem lhe permitiam sentar-se
comodamente à mesa para almoçar e ganhou celebridade entre nós, travessos
atletas adolescentes, a habitual sandes (sanduíche) que sempre levava e que só
era devorada após a equipa estar prontinha a entrar em campo.
Inúmeras
histórias haveria a contar, mas o tempo e o espaço começam a escassear e se
esta desculpa esfarrapada não serve direi então que a memória está em greve
Faço
o remate final relatando o que vejo nesta foto
e que foi tirada em Lamego no início
do decénio de 80 quando a comitiva do Desportivo Santacombadense tinha por
destino Resende. Deste jogo no Douro já eu falei na minha crónica anterior
quando pretendi fazer singela homenagem a Teixeira Dinis, outro grande
santacombadense que viveu intensamente a Camisola Preta. Nesta foto revejo com
uma pontinha de nostalgia o Jó Ramim, entre a minha pessoa e o velhinho
Serafim Brinca, e em pé, atrás, lá está o seu primo Rui Brinca intrometido
na ala directiva formada pelo António José Bilro, o Alfredo, o (também)
grande Zé Dias e o bem-disposto Delfim Pais de Matos...
Que descanse em paz, Presidente!
Neves, AJ | outubro 19, 2004 07:28 PM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt