Outeirinho...
(com
breve incursão ao Douro)
Outeirinho.
É
diminutivo de outeiro, pequeno monte ou elevação...
Vem
nos livros.
...
simpático, carinhoso, adjectivamos nós.
Outeirinho.
É
lugar reconfortante e recheado de emoção.
É
livro e também Diário de páginas gravadas com instantes das etapas
mais saborosas da vida: a infância e a adolescência.
Também
é rua.
Que
lhe chamo minha: nela não nasci, mas foi lá que cresci. E como eu,
outros mais. O planeamento ainda estava a décadas de distância.
Não
foi sempre assim a minha rua.
Naquele
tempo... no tempo dos calções e quando a penugem na cara ainda era miragem, a
parte final da minha rua ficou mais desafogada após recuo de muro.
Também
o "demoníaco" largo terminal (o correr dos tempos quer baptizá-lo de
miradouro) que punha o "coração nas mãos" às nossas cuidadosas mães,
foi arranjado. Antes, eu nem podia circular livremente com o meu triciclo de
tracção pedaleira à roda da frente.
Da
vedação por murito com meia dúzia de centímetros de altura, cresceu
esbelta cercadura de granito (esculpido por mãos sábias) bordada a azulejo. E
a tranquilidade voltou às mães. O árduo trabalho doméstico poderia agora ser
realizado com mais calma e cuidado.
O
chão foi manilhado e pavimentado com cubos graníticos cimentados pelo sangue,
suor e lágrimas das alegres futeboladas, mas proibidas pelos tenebrosos agentes
da ordem de então.
Ó
tempo... não voltes para trás!
Quem
também poderia testemunhar, não fora o facto de na altura ainda ser de tenra
idade, seria o alto cipreste que hoje é sentinela no livre acesso à minha
rua.
A
visita de colegas das minhas antigas lides por terras do Douro, fez com que a
minha mente recuasse no tempo.
À
medida que progredíamos pelo meu Outeirinho ia-lhes falando, sem
nostalgia, dos meus tempos de infância.
Inevitavelmente,
também recordámos as nossas peripécias por aqueles lugares recônditos, onde
as Primaveras e os Outonos são maravilhosos, mas com Verões e Invernos
radicais. Recordámos as dificuldades sentidas quando, com as condições possíveis,
"se fazia das tripas coração" para que a adição ou a raiz quadrada
fossem parte do conhecimento de jovens com direitos iguais aos das grandes
urbes.
-
Que mata é esta?
Uma
bomba estoirou no meu cérebro.
Puxava
eu por todos os galões e mais alguns na explicação de quase tudo o que a
nossa vista abraçava (desde a bacia das águas do Dão à torre da Igreja de Óvoa)
e vai um deles fazer-me interrogação despropositada...
-
Não é mata alguma... é matagal.
A
tristeza invade o grupo. A mim acrescenta-se a vergonha: os verdes milharais e
batatais desapareceram e as leiras e os bataréus foram literalmente invadidos
por todo a espécie de flora selvagem.
-
Não tarda muito, os javalis virão cá acima mirar a paisagem.
Piada
que não é descabida de todo...
Por
questões de sobrevivência, os vegetais lutam pela luz solar que lhes permite
maior síntese alimentar e crescem, invadindo. E algumas pernadas voltam já a
privar-nos da maravilhosa panorâmica a partir do largo da minha rua.
Educar
certos visitantes do Largo do Outeirinho seria também tarefa necessária.
Mas, não será fácil chamar à razão mentes ternurentas entretidas a ouvir o
canto dos passarinhos, ou será? Certamente dirão que nem com a colocação de papeleiras
(... eu, pessoalmente não compreendo a sua ausência), os usados lenços e
guardanapos de papel ou as embalagens de tabaco, de bolachas e de iogurtes
escapariam ao lançamento no vazio. Mas, não se pode “medir todos pela mesma
rasa” e a não existência de caixotes para o lixo em locais como este, é um
verdadeiro convite à conspurcação.
Tendo
em memória o magnífico colorido das pétalas noutros jardins da cidade, sou
obrigado a resistir à maléfica voz que me alerta para discriminação, e
considerar que se trata apenas de falta de lembrança. Aqui fica o
alerta!
Pela
minha rua acima volto ao passado, à era do sacho sem herbicida,
mas com o empedrado livre de ervas daninhas.
E
também voo em direcção ao futuro, imaginando a recuperação (condigna) do
caminho entre a Rua do Outeirinho e a Beira-Rio.
Ele
existiu, era nosso e de todos. Agora, é autêntica aventura descer por
ele.
Também
não é quimera alguma a recuperação da Ribeira (nesta zona) e do Matadouro.
Assim como do antigo moinho ali existente –não seria interessante ensinar ao
jovem de hoje um dos passos que o pão dá até chegar à mesa?
São
empreitadas tão possíveis quanto desejáveis.
E,
afinal, eram preciosidades bem nossas que o "progresso" roubou.
(Redigido
finais 2001)
Neves, AJ | abril 30, 2004 08:32 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt