abril 30, 2004
Outeirinho

Outeirinho...

(com breve incursão ao Douro)

Outeirinho.
É diminutivo de outeiro, pequeno monte ou elevação...
Vem nos livros.
... simpático, carinhoso, adjectivamos nós.
Outeirinho.
É lugar reconfortante e recheado de emoção.
É livro e também Diário de páginas gravadas com instantes das etapas mais saborosas da vida: a infância e a adolescência.
Também é rua.
Que lhe chamo minha: nela não nasci, mas foi lá que cresci. E como eu, outros mais. O planeamento ainda estava a décadas de distância.
Não foi sempre assim a minha rua.
Naquele tempo... no tempo dos calções e quando a penugem na cara ainda era miragem, a parte final da minha rua ficou mais desafogada após recuo de muro.
Também o "demoníaco" largo terminal (o correr dos tempos quer baptizá-lo de miradouro) que punha o "coração nas mãos" às nossas cuidadosas mães, foi arranjado. Antes, eu nem podia circular livremente com o meu triciclo de tracção pedaleira à roda da frente.
Da vedação por murito com meia dúzia de centímetros de altura, cresceu esbelta cercadura de granito (esculpido por mãos sábias) bordada a azulejo. E a tranquilidade voltou às mães. O árduo trabalho doméstico poderia agora ser realizado com mais calma e cuidado.
O chão foi manilhado e pavimentado com cubos graníticos cimentados pelo sangue, suor e lágrimas das alegres futeboladas, mas proibidas pelos tenebrosos agentes da ordem de então.
Ó tempo... não voltes para trás!
Quem também poderia testemunhar, não fora o facto de na altura ainda ser de tenra idade, seria o alto cipreste que hoje é sentinela no livre acesso à minha rua.
A visita de colegas das minhas antigas lides por terras do Douro, fez com que a minha mente recuasse no tempo.
À medida que progredíamos pelo meu Outeirinho ia-lhes falando, sem nostalgia, dos meus tempos de infância.
Inevitavelmente, também recordámos as nossas peripécias por aqueles lugares recônditos, onde as Primaveras e os Outonos são maravilhosos, mas com Verões e Invernos radicais. Recordámos as dificuldades sentidas quando, com as condições possíveis, "se fazia das tripas coração" para que a adição ou a raiz quadrada fossem parte do conhecimento de jovens com direitos iguais aos das grandes urbes.
- Que mata é esta?
Uma bomba estoirou no meu cérebro.
Puxava eu por todos os galões e mais alguns na explicação de quase tudo o que a nossa vista abraçava (desde a bacia das águas do Dão à torre da Igreja de Óvoa) e vai um deles fazer-me interrogação despropositada...
- Não é mata alguma... é matagal.
A tristeza invade o grupo. A mim acrescenta-se a vergonha: os verdes milharais e batatais desapareceram e as leiras e os bataréus foram literalmente invadidos por todo a espécie de flora selvagem.
- Não tarda muito, os javalis virão cá acima mirar a paisagem.
Piada que não é descabida de todo...
Por questões de sobrevivência, os vegetais lutam pela luz solar que lhes permite maior síntese alimentar e crescem, invadindo. E algumas pernadas voltam já a privar-nos da maravilhosa panorâmica a partir do largo da minha rua.
Educar certos visitantes do Largo do Outeirinho seria também tarefa necessária. Mas, não será fácil chamar à razão mentes ternurentas entretidas a ouvir o canto dos passarinhos, ou será? Certamente dirão que nem com a colocação de papeleiras (... eu, pessoalmente não compreendo a sua ausência), os usados lenços e guardanapos de papel ou as embalagens de tabaco, de bolachas e de iogurtes escapariam ao lançamento no vazio. Mas, não se pode “medir todos pela mesma rasa” e a não existência de caixotes para o lixo em locais como este, é um verdadeiro convite à conspurcação.
Tendo em memória o magnífico colorido das pétalas noutros jardins da cidade, sou obrigado a resistir à maléfica voz que me alerta para discriminação, e  considerar que se trata apenas de falta de lembrança. Aqui fica o alerta!
Pela minha rua acima volto ao passado, à era do sacho sem herbicida, mas com o empedrado livre de ervas daninhas.
E também voo em direcção ao futuro, imaginando a recuperação (condigna) do caminho entre a Rua do Outeirinho e a Beira-Rio.
Ele existiu, era nosso e de todos. Agora, é autêntica aventura descer por ele.
Também não é quimera alguma a recuperação da Ribeira (nesta zona) e do Matadouro. Assim como do antigo moinho ali existente –não seria interessante ensinar ao jovem de hoje um dos passos que o pão dá até chegar à mesa?
São empreitadas tão possíveis quanto desejáveis.
E, afinal, eram preciosidades bem nossas que o "progresso" roubou.

(Redigido finais 2001)

Neves, AJ | abril 30, 2004 08:32 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt


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