A Ribeira das Hortas
Nem tudo é encanto...Nunca é demais escrever sobre
ela.
Já em crónica anterior vos
falei da mútua cumplicidade existente entre mim e a ribeira - Ribeira das
Hortas, corrijo hoje.
Cumplicidade lúdica na infância,
também inspiradora nos tempos actuais.
Na verdade, é em errantes
passeatas ao longo dela que, por vezes, mentalmente cozinho o que à mesa vos
sirvo.
Mesmo neste enigmático
Dezembro, a tranquilidade das suas águas - lubridiando-nos com qualquer mês
estival, não fora a baixa temperatura - puxa-nos até ela.
Neste lado, no lado da antiga
central eléctrica e futuro museu,
o tão badalado painel geomorfológico colocado nas suas paredes já fez as
pazes com as povoações ofendidas. Também os espaços ajardinados circundantes
tomam forma, dando mais vida à "versão dois" do Parque de
Estacionamento automóvel.
Parque este que teima em não
ficar totalmente lotado, contrariando vozes que praguejam tais faltas de lugares de arrumo.
Questões puramente de comodismo ou reumatismais, talvez.
Do outro lado, a beleza
tranquilizadora do bem tratado jardim leva-nos a anuir que valeu a pena o sacrifício
do antigo e tão familiar lameiro.
Mas, mais harmonioso e
cultural ficaria tal espaço se o hoje Posto de Turismo mantivesse em movimento
as graníticas mós que, em tempos idos, os meus nostálgicos olhos
testemunharam a triturar o grão, transformando-o em alva e fina farinha... e que as
mãos sábias e hábeis de minha tia amassavam, fabricando a mais saborosa das broas de
milho.
Da ponte em arcada e do
passadiço nada vos vou contar. Já conheceis. Abro um único parêntesis para
enaltecer, visto que o dezasseis já lá vai, a feliz ideia da Junta de
Freguesia e a exemplar execução por obreiros não citados. É obra digna de
apreciação, oferecendo-nos ainda lazer e utilidade. Para além do prazer
usufruído, pode o simples passeante esquivar-se a potencial atropelamento na
parte final da estreita Rua Alexandre Herculano.
Também agradável e
ternurenta é a paliçada dos palmípedes junto à ponte em arcada. Uma quase
dezena de gansos e patos co-habitam em franca harmonia e podem ser vistos a
vogar à tona de água, assim a vontade surja e a pontaria do observador esteja
afinada.
Para uma mais cómoda apreciação,
um ou dois bancos colocados junto aos antigos lavadouros "vinham mesmo a
matar".
Quem também frequentemente
navega nas águas da ribeira é um trio de patos, residentes no cuidado e
embelezado mini-zoo dos Bombeiros Voluntários junto ao qual a Ribeira das
Hortas serpenteia graciosamente entre firmes margens.
Mas, nem tudo é encanto...
E chego, finalmente, ao mote
que me levou a redigir estas linhas.
Comodamente sentado ou debruçado
nos varandins que ladeiam a ribeira, ao observador depara-se todo o tipo de
objectos navegantes perfeitamente identificáveis. Os mais representativos são
sem dúvida, os plásticos. Material verdadeiramente revolucionário, que em
muito modificou a nossa forma de viver, o plástico necessita de uma eternidade
para naturalmente se degradar.
Eles são sacos, com ou sem
asas, embalagens de detergentes ou lixívias, de iogurtes e até recipientes que
aparentemente parecem que ainda teriam utilidade para outrém. Mas a corrente
das águas, persistentemente, de tudo um pouco lá vai transportando até à
foz. Embalagens de cartão, panfletos, jornais e até cebolas e batatas.
Mesmo admitindo que uma certa
percentagem de tais objectos possam ser lançados por factores ambientais, como
o vento ou a chuva, não podem restar dúvidas que a maior contribuição é
dada pela mão humana.
Torna-se imperioso uma mudança
de mentalidades de modo a preservar este curso de água, verdadeiro ex-libris da
nossa cidade de Santa Comba Dão.
Apetece repetir o badalado... Lixo nos contentores,
já!
(Redigido
em Junho 2002)
Neves, AJ | outubro 6, 2004 08:04 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt