A Ribeira
A
estreita relação que tive e mantenho com a ribeira que atravessa a cidade,
leva-me a redigir este artigo que não é mais que um lamento.
Testemunha de inúmeras
e alegres brincadeiras com alguns dos meus amigos de infância, a Ribeira do
Couto, como sempre ouvi aos mais velhos, merece que lhe seja dada voz.
Naturalmente ela
agradece os melhoramentos efectuados, especialmente a montante dos antigos
moinhos, que a tornaram mais graciosa e mais acolhedora para a sua fauna e flora
próprias.
Sente-se
orgulhosa de numerosos cardumes de pequenos peixes terem voltado e ter dado vida
a um enorme tufo de palha tabua no recanto ao lado da velha “ponte
arcada” em pedra, que é motivo de admiração.
Mas, não
entendendo a sociedade dos homens, a velha ribeira na sua revolta, aos mais sensíveis
murmura:
– Porquê?
Porque me fazeis isto? Não compreendeis vós que os resíduos de derivados de
petróleo que, por vezes, em mim lançam e cujas manchas podeis observar à
superfície, me são prejudiciais? E aos que em mim vivem? E a vós também? Não
vos apercebeis do odor nauseabundo?
E aquela levada turva, que algumas vezes chega até mim através do esgoto mesmo
ao lado da outra ponte? De que se trata? Coisa boa não deve ser... Para que me
embelezais com floreiras se me sujam a “alma”? Não me interessa de onde
vem, isso é com vocês homens de pouco tino, mas interrogo-me sobre o futuro
que buscais para os vossos filhos. Coloquem a mão na consciência e
reflictam.
E, mais não
disse. Mesmo envergonhada por suja estar, era hora de partir e nas águas da albufeira se lançar!
(Redigido Outubro 2001)
Neves, AJ | outubro 4, 2004 06:35 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt