É Domingo.
Por aqui, por estas bandas di cá, falta um quarto para as
nove de uma manhã outonal que acordou bem cinzenta e por aí ainda se darão os
últimos retoques num almoço que, por ser domingo, pretende ser bem familiar.
Será então a hora propícia de a minha voz fazer a travessia transatlântica,
transformando o mar revolto em rio de águas calmas e assim alimentar, com a
estabilidade emocional desejada, o amor entre um pai e a razão de sua existência.
No entanto, a mensagem de
minha filha fere-me os ouvidos e martela-me o cérebro.
Em centésimos...
milésimos... a mente voa e recua... vinte, trinta... ena pá, aí uns trinta e
cinco anos a passar e vejo-me no velhinho Estêvão de Faria, n’os Juniores,
nos treinos do Desportivo Santacombadense. Seria, teria de ser, uma terça ou
quinta-feira em final de tarde. Não se coloca a questão se fazia sol ou chuva,
pois o que interessa para a presente Crónica, retrato da tristeza que me
invade, é que antes de rumar ao Pereiro passávamos pela “Oficina do
Senhor Fernando das Bicicletas” em atitude apelativa e simultaneamente
interrogativa se o treinador, nosso mestre e de mecânica também, já teria
dado o “murro final” na teimosa tampa do motor que (antes) sofria de maleita
e que já se encontraria apto a carregar com o dono.
Em centésimos
também recordo a minha subida aos Seniores e a conturbada ida para a equipa de
S. Joaninho, considerada então por algumas mentes estupidamente saloias como
uma “traição à terra” quando, afinal, de dispensa se tratava. E o engraçado
da questão é que passados tantos anos o progresso provou a essas mentes que
estavam bem erradas visto que hoje aquela simpática freguesia é parte
integrante da nossa cidade de Santa Comba Dão. Mas adiante, o que conta p’ra
aqui é que na minha cabeça juvenil de então tal “trauma” nunca chegou a sê-lo,
porque, além do mais e para minha felicidade e meu desempenho, tinha o mister
Teixeira a meu lado e com ele todo o apoio necessário e imprescindível.
Ao Álbum ainda por ordenar
de Fotos acavaladas dentro da inestética, mas sempre preciosa caixa
de sapatos, busquei uma. Coloquei-a no canto superior esquerdo do monitor do
computador onde escrevo em busca de inspiração, porque a mente está em
turbilhão e faz-se tarde ou tenho pressa em chegar ao final não sei. Reconheço,
lá atrás, o Zé Gomes compenetrado e escondido nos habituais óculos escuros
talvez em busca de inspiração para os golos que não sei se marcou nessa
tarde. Dá ideia que o Sol raiava nessa tarde, mas a temperatura não seria tão
alta assim tendo em conta os agasalhos que cada um está usando e sabemos nós
que lá para as faldas da Serra de Montemuro o frio faz sentir-se com mais
intensidade do que cá em baixo pelas margens do Dão. É que quanto ao local onde
nós estamos, nós Pinguins em caminhada de descontracção muscular e
quiçá mental tenho eu a certeza absoluta e afirmo ainda que é algures em
estrada qualquer pertencente ao município de Resende ou ao de Cinfães lá para
as bandas do Douro. A data é que ficou nos anais do esquecimento, mas penso que
deve ser lá pela Primavera de 80, talvez antes... talvez depois.
Em primeiro plano, nos abonecados,
distingo o Eurico e o Carlos (de Treixedo). À esquerda do retrato caminha
descontraído o Rui Brinca também com os inseparáveis óculos escuros e a seu
lado este que vos escreve em verdadeira pose para a posteridade. De barba e calças
à boca-de-sino, rio a bom rir certamente contagiado pelo aberto sorriso da
figura central, o nosso Teixeira.
Ordenei, assim, à minha mente que
guarde para sempre este quadro. Que grave esta imagem do homem sorridente,
alegre e sempre bem-disposto que tive sorte em conhecer, com quem aprendi e
tanto convivi e se me perguntarem a razão por tornar pública esta singela
homenagem ao Teixeira Dinis direi eu apenas que há razões que a razão
desconhece.
Tanto que fica por dizer, mas... um
homem também chora, não?
Por aqui me fico com,
inevitavelmente, uma lágrima derramada por si amigo Teixeira.
São Paulo, 30/05/2004
Neves, AJ | junho 6, 2004 08:29 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt