|
Um lustro cheio de brilho
...é o que quero desejar à cidade, que continuo a chamar de minha apesar da distância.
Ao inventar o título da crónica pensei logo que Herman diria que a língua
portuguesa é mesmo muito traiçoeira. Eu direi antes
que se presta a jogos, a jogos de palavras que são uma característica mui
própria de alguns iluminados como os grandes humoristas da palavra dita ou escrita.
Convenhamos que tais trocadilhos podem tornar-se aborrecidos se franqueados à
ironia, mas escrita feita de tais atributos léxicos dá ao leitor a garantia
absoluta de passar além da imaginação.
Um dos autores que é pródigo em tais
jogos é Rui Zink, esse mesmo, um dos residentes do “Noites da Má Língua”,
programa que já findou e não sei se já “teve alta” do purgatório a
que foi votado pela tolerância dos telespectadores. Conheci Zink no encontro
Portugal das Novas Gerações promovido pelo Instituto Camões de São Paulo e
em que era pressuposto falar-se dos
“30 anos da Revolução dos Cravos”. Afinal o “tiro saiu-me pela
culatra”, pois dos quatro escritores portugueses presentes no palco só a idade de um era superior à
minha, que em 74 completei 19 anos. Esse escritor mais velho, que exerce a profissão de médico psiquiatra dá pelo nome de Daniel Sampaio (o autor do recomendável Inventem-se Novos Pais
e que mais uma vez não conseguiu escapar à embaraçosa irmandade
com o Presidente) e focou essencialmente a revolução de mentalidades na
família. Os outros limitaram-se a relatar o que leram ou ouviram e como diria
mais tarde Zink “as balas da Revolução passavam por cima dos meus 12
anos”.
Eu deveria ter desconfiado logo quando entrei todo lampeiro no pequeno anfiteatro naquela segunda-feira da penúltima semana de Abril e não deparei
nem com cartaz alusivo nem com simples
jarra de cravos. Oito dias depois interroguei-me se estaria o Instituto Camões
com orçamento reduzido ou se também
por aqui o erre foi acometido de síncope num desejo qualquer de tornar o espírito da
revolução mais cavo, mais cavernoso, mais oco. Apesar de tudo valeu a pena ter
ido ouvir a Língua de Camões tal
como eu a falo, já que o que me chega de Portugal sob a forma de novelas, por
exemplo, é dublado para o “português falado por aqui” e até a
trilha sonora é alterada.
É esta a Cultura, que afinal deixa de ser
totalmente nossa, que exportamos e que oferecemos à Pátria Irmã...
Mas, esta
Crónica deseja ser de festa.
E endereço, desde já, os parabéns à nossa
terra de Santa Comba Dão pelos seus cinco anos de existência como cidade. Foi
realmente em Maio, 13 do ano de 1999 que as pessoas se interrogaram da razão do
estrelejar do céu santacombadense, dia em que a
Assembleia da República tinha aprovado, por unanimidade, a elevação a cidade
da então vila de Santa Comba. É data que deve encher de orgulho todos os
santacombadenses, sejam eles os nascidos entre os muros do concelho, sejam
aqueles que escolheram a nossa terra para “fazer a sua vida”... sejam os que
se encontram presentes sejam também os que se encontram ausentes, como eu.
Eu
que fiquei particularmente feliz, não só por o ter defendido em duas ocasiões (Dois anos de Cidade e 13 de Maio) no semanário da nossa terra,
que a Assembleia Municipal da
autarquia tenha votado por unanimidade afirmativa a proposta da alteração do Feriado
Municipal para o dia 13 de Maio,
acrescentando-lhe a denominação mui acertada de Dia do Concelho e que neste
primeiro lustro de existência haja comemoração especial como me chega através
do site da Câmara Municipal.
Em viagem pelas páginas do Defesa da Beira e pelo
citado sítio internético (infelizmente ainda sem o fórum de discussão,
que era um meio de aproximação entre santacombadenses) constato,
orgulhosamente, que a cidade não pára. Que é realmente cidade e não nechechidade.
É dever enaltecer o esforço da Autarquia em dar vida às águas sulfurosas do
Granjal e finalmente parece que vai ter forma o já denominado Parque de Saúde
e Lazer das Termas do Granjal.
Por outro lado vejo que a Casa da Cultura é Ferrari (se me permitem a analogia) que não é mera
ostentação, antes pelo contrário vai de vento em popa. Elas são as exposições
de pintura de artistas santacombadenses ou de localidades vizinhas, as sessões
de teatro entre elas as incorporadas no Festival do Grupo Cénico de S. Joaninho
da nossa cidade, os desfiles, as músicas, os cantos, as periódicas sessões de
cinema... ainda a criação de um atelier de fotografia e outro mais que eu não tenha conhecimento.
Não chega até mim a
reacção das gentes, mas se o povo não adere perguntarei: “Que mais quereis
senhores?”.
E apetece dizer, não sei se com nostalgia se com uma pequena dose de raivinha:
porque é que no meu tempo não havia nada disto?
Neves, AJ | maio 13, 2004 10:29 PM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt