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Teria eu sido acometido hoje por
saudadesite alguma? Não... ou talvez sim,
não sei. Finalmente fiz, melhor dizer pedi o especial favor de me fazerem, o scanner da tua foto que é quadro em parede cá em casa...
ao lado da Piruças, a cachorrita que vive connosco, que assim baptizei e que simpatizou comigo desde que cheguei, talvez
graças aos odores teus que transportei. Fiz poema, não?... meu fiel amigo Raposão.
Cão vadio... melhor dizendo cão vira-lata como se diz por cá... sempre é termo mais suave e um dos prazeres que
sempre tiveste foi
"virar" a caminho do estômago umas latinhas de comida que o pessoal
amigo de vez em quando te ofertava. Sei que já não vagueias pelas ruas
de Santa Comba. Terias partido em minha busca? Quando chegares a Santos, manda
uns latidos que eu vou buscar-te. Sinto saudades tuas, sabias? Só espero que estejas bem e que o
teu "dono" (pergunto-me sempre se um ser racional ou não é pertença
de outro), dizia eu o alguém que te dá a comidita se algum dia ler o que escrevo
que te faça um afago tal como este teu companheiro te fazia nos momentos de pausa
nas jornalísticas viagens que fizemos. Abraço velho Raposão, fiel
companheiro.
(O
texto vai tal e qual como o fizemos na altura.)
Raposão
Este é um dos nomes que me chamam!
Sei que não é o de baptismo, quando ainda era moço
bibelô e fazia a delícia dos meus donos, mas gosto muito e obedeço ao
chamamento.
Vá lá saber-se porquê, o meu pequeno cérebro ficou parcialmente amnésico,
talvez devido a acidente ou algum trauma e muitos factos nele gravados
apagaram-se.
Não me lembro quem me terá adoptado. Também não
sei se me perdi, se fui posto na rua ou se fugi e, se o fiz, não sei
porquê.
Só sei que dei por mim a vaguear pelas ruas e três ou quatro amigalhaços,
acarinharam-me. Para além das apetecíveis festinhas, que mesmo em adulto sabem
bem, ofereceram-me palavras amigas e o essencial da vida... a "bucha".
Que mais poderia ambicionar? Ainda por cima livre dos elos férreos de
qualquer corrente.
E pernoitar nunca foi problema. Com este cobertor
que carrego às costas, qualquer abrigo me serve. Maravilha! E mais... passei a
ser autêntico "ex-libris" da área de que me assenhorei junto às
instalações da rádio local e deste jornal [Defesa da Beira], e assentei arraiais nas escadinhas
de acesso ao estabelecimento do meu "Amigo Leal".
Inevitavelmente fiz muitos mais amigos.
A um deles, costumo eu acompanhar em longas caminhadas que ele depois vos relata
sob a forma de viagem. Talvez devido ao meu focinho afunilado, às
pequenas orelhas erectas e ao pêlo acastanhado e felpudo, ele começou a
chamar-me RAPOSÃO.
Gostei! É um nome fixe! Engrandece o ego!
Outros chamam-me mui carinhosamente BOBI. Também gosto! Faz-me sentir mais
jovem, apesar de não saber a minha idade.
Maldita amnésia!
Foi num momento retemperador, na última passeata, que o meu olhar triste
transmitiu ao meu companheiro de jornada o que agora ledes.
É que eu não sou um vira-latas qualquer.
Não sou nenhum vadio. Apelidai-me sim de sem-abrigo privilegiado.
Não me arvoro em intelectual, mas considero-me um
"ser cãotural".
Poderá parecer que estou a dormir, mas o ouvido está sempre alerta.
Ficai a saber que assisto à emissão de muitos
programas radiofónicos e que tomo conhecimento dos artigos publicados neste
semanário bem antes de vós, leitores.
E um dos artigos que muito me sensibilizou foi o do TOBIAS, da autoria do amigão
Sandro.
Gostava de o conhecer.
Verdadeiro companheiro de luta pelos direitos dos animais.
Um cão não é um brinquedo, não. Um cão merece todo o respeito e jamais poderá ser
abandonado quando cresceu mais do que estava previsto ou a idade já não lhe
permite brincar ou porque está doente ou porque trava a liberdade aos seus
donos.
Será que me aconteceu o mesmo?
Maldita amnésia!
Mas não sou egoísta, não penso só nos da minha espécie.
Sou solidário com todos os companheiros que as pessoas intitulam de estimação
e que, mais dia, menos dia, estão sujeitos a ser enjeitados. Principalmente em
período de férias... dos humanos.
Nem esqueço aqueles que para sustentar a
humanidade e a mim próprio, fazendo-se cumprir a indispensável cadeia
alimentar, são abatidos de forma desrespeitosa.
E não consigo compreender como podem certos racionais (?) seres sacrificar
publicamente, para seu gáudio, os pobres touros que pomposamente apelidam de
... morte. Gostariam eles de serem alcunhados Manel ou Jaquim de Morte?
Por outro lado sei que os humanos me acusam, a mim e aos meus camaradas, de
"porco". Sinceramente... porco? Nem o próprio. É com tal epíteto
que se agradece à mais nobre das fontes de alimentação quadrúpede?
Como não fui ensinado a ir aos locais próprios,
que nem sei se por aqui existem, sou obrigado a lançar na rua os desperdícios
da minha alimentação. E não tenho culpa por não ter dono responsável que
apanhe, como seria seu dever, os meus dejectos.
Mas sempre que me é permitido (como vós sabeis a vontade pode surgir num
repente) vou “fazer” ao campo. É mais ecológico e até posso esgaravatar a
terra.
Quanto ao banho, como os humanos o entendem, não uso champô, pois a Natureza não
me dotou de capacidade para o colocar e espalhar pelo peludo corpo.
Privilegiados são os apaparicados caninos, que não sabem o que é lutar pela
vida, e que até à manicura e ao cabeleireiro os levam.
Mas eu trato de mim apanhando umas chuvadas!
E pena tenho eu de só tardiamente saber o momento em que os vândalozitos
fabricam a
espuma na fonte dos repuxos.
Mergulharia logo e ficaria como novo.Mas, decerto
seria logo detido e espetavam comigo em cela exígua de qualquer canil, à
espera que os ossos apodrecessem, enquanto os mafarricos continuariam a
pavonear-se e a prepararem mais outra façanha.
Ná... ná... viva a liberdade...
mesmo sujo!
Ão! Ão!
Neves, AJ | setembro 30, 2004 07:48 AM | Voz do Seven 2 | Voz no SAPO.pt